Movimentos sociais como acontecimentos

O ramo dos movimentos sociais apresenta um imenso leque de estudos para quem se dedica ao movimento. Tal estudo vai desde o processo de massificação, até às lutas emancipatórias (de libertação). E com essa grande diversidade, torna-se possível dialogar conceitos e levantar diversas questões acerca dos temas abordados.
Mas mesmo com toda essa riqueza, muitas vezes a complexidade de tal tema é deixada de lado, pela necessidade dos estudiosos de se dedicarem a apenas um dos pólos desse estudo. Alguns preferem se dedicar ao papel dos indivíduos no movimento (microssociologia), enquanto outros defendem o privilégio do processo histórico e as oportunidades que ele gerou (macrossociologia). E com isso os estudiosos acabam buscando apenas explicações casuais para o movimento.
Entende-se por acontecimento tudo aquilo que é digno de conhecimento , e interpretar um movimento social a partir deste conceito, é o mesmo que interpretar o que precede e o que irá suceder este movimento. Quando se reconfigura, de forma interpretativa, fragmentos da realidade social, o contexto em que se situa, e até os indivíduos que fazem parte, também são afetados.
Vale destacar que, movimentos não são simplesmente entidades que defendem causas e sujeitos, mas muitas vezes eles necessitam dessa sistematização para se tornarem reconhecíveis.
A noção de acontecimento muitas vezes é reduzida à ideia de fato, e até mesmo as ciências sociais têm dificuldade de lidar com tal termo. Segundo Louis Quéré, uma das razões dessa dificuldade é que as ciências sociais hesitam em tratar os acontecimentos como fenômenos de ordem interpretativa. Os acontecimentos, além de criar condições para sua própria compreensão, também instaura possíveis futuros.
Vale destacar também que o indivíduo não é o dono da significação do mundo, mas ele também sofre os efeitos dos acontecimentos.
Com o seu desenrolar, o acontecimento mostra que o passado não deve ser visto como algo explicado, mas sim como algo que está se explicando ao longo de novas descobertas. E o futuro também pode ser modificado de acordo com o que está acontecendo.
Algumas perspectivas julgam que os movimentos sociais são apenas reflexos de acontecimentos, considerados externos. Mas outros também analisam que em vez disso, os movimentos sociais podem ser vistos sob a ótica dos acontecimentos. A coletividade dos movimentos sociais permite constituir o passado como marcado por práticas desrespeitosas (devido à ausência de coletividade e outros aspectos), e o futuro como espaço de construção para “mundos possíveis”.
Melucci optou por definir os movimentos sociais como profetas, pois eles não são resultado de uma crise, mas um sinal de transformações profundas. Os movimentos sociais não surgem apenas com lutas ou sinais de injustiça, logo essa classificação se torna insuficiente. Os movimentos sociais criam também um campo problematizante, acerca tanto daquilo que éramos, como daquilo que devemos nos tornar. Esses entendimentos versam sobre a autocompreensão dos sujeitos, mas também sobre a sociedade como um todo.
Segundo Arendt, a ação “não pode sequer ser imaginada fora da sociedade dos homens”, ela é o que dá a capacidade da sociedade, coletivamente, de se criar e refundar. Com isso conclui-se que os movimentos sociais podem ser interpretados como exercício de ação, pois irrompem algo, questionando o que até então era tido como natural.
Se códigos culturais naturalizam construções sociais, o papel dos movimentos seria desconstruí-las, mostrando que novos valores e práticas também são possíveis. O engajamento dos indivíduos nas ações políticas, pode arrancá-los da situação paralisante de rebaixamento, e lhes proporcionar uma situação nova e positiva.
A ação dos movimentos sociais pode também ser interpretada como uma interrupção no curso automático da vida, fazendo com que a sociedade, como um todo, seja capaz de questionar e se aceitar enquanto indivíduo. Entender um movimento social como acontecimento é entender que ele não parte de um indivíduo específico, mas sim de um grupo que é involuntariamente colocado em determinada posição.
O movimento social em si, é originado através de pequenos acontecimentos. Hannah Arendt define a esfera pública como “o que há de comum entre os homens”, ou seja, um espaço de apresentação, partilha e discussão dos mais diversos temas, o que é algo de grande importância para a construção de uma sociedade comunicativa. Mas Quéré também afirma que essa esfera possui uma forma, regras e princípios de organização que a regem. E é nessa esfera que se desdobram as ações dos movimentos sociais, através de troca de argumentos com o público.
Os movimentos sociais também devem ser considerados como enunciadores, já que narram as experiências do mundo, e buscam formas alternativas àquelas existentes. Eles também tornam os fatos sensíveis e práticos, fazendo com que haja crítica e discussão sobre os fatos de uma forma mais ampla. Estes movimentos além de questionarem pretensões existentes, também buscam construir novas, dando forma aos diferentes significados existentes no mundo.
As narrativas das mídias, por apresentarem grande visibilidade, fazem parte da construção do mundo comum, funcionando como uma teia de relações, onde os indivíduos estão inseridos, e por onde passam outras teias.

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